Domingo, 6 de Julho de 2008

Algumas Cenas do Monastério do Cinema




Sob a poeira de Cuba e as lições de Octávio Cortazar, escreve-se um belo roteiro; porém, o destino impõe suas armadilhas. O final infeliz é inevitável.


Manhã de domingo, final de setembro de 2007. Eu e minha mala de 30 kg desembarcamos no Aeroporto Jose Martí. Um calor insano. Um cheiro de fumo mofado. Minha mochila foi aberta. Não, não falta nada. ¡Señor! ¿Dónde tomo un coche a la escuela de cine, en San Antonio de Los Baños? Meus olhos curiosos: eles são cubanos! Meus olhos invasivos: o que há nessas casas? O que há nessas almas?

Poeira, poeira, e, na metade do caminho, o motorista olha para os meus olhos pelo retrovisor: ¿Querés ser actriz? No, no sé lo que quiero ser. Parece piada. No meu senso comum, pergunto o que todos perguntariam a um cubano. Ele me mostra os campos improdutivos. Eu insisto no tema. Ele diz que, antes da revolução, tudo era ainda pior. Eu quero saber como é o jornalismo em um país comunista. Ele fala das novelas brasileiras. ¿Cómo termina La Cabocla? Discúlpame, señor, pero no lo sé. Essa foi a segunda de muitas vezes em que pediria desculpas por não saber.

“Ahí está”, diz o motorista, e, depois, já não ouço nada. Perco-me na contemplação do território sagrado. San Antonio de los Baños, há 25 km de La Habana. “Ahí está”: o Monastério do Cinema. Alguns templos brancos no meio do campo deserto. Escuela de Cinema y Televisión. Muito mais cinema que televisão. “Ahí está”.

O porteiro verifica se meu nome está na lista. Si, “Thaís Brugnara”, del Taller de Realización de Documentales. A funcionária me conduz ao apartamento. Outra brasileira e quatro espanholas na nossa capela de três quartos. Heresia! Na cozinha, nada funciona. No banheiro, não há tampa no vaso. Porém, na sala, tem um vídeo cassete.

Explicam-me que tenho direito a três refeições por dia. 12h30. É hora do almoço. No refeitório, dezenas de alunos que, por amor ao cine, ficam três anos longe de tudo. Três anos vivendo neste monastério, que, de sagrado, só tem a arte. Encontro com quem conversar em português, com quem reclamar da falta de arroz... A entrada é um prato fundo de feijão. Em seguida, quiabo, repolho, purê de batata, ovos. Sem medo da congestão, piscina. Com medo dos raios, voltamos ao apartamento. Respeitamos a chuva diária, alívio sob o calor equatorial. Mas que fazer dentro de casa? Filme argentino.

Segunda-feira, a primeira aula. Cedo da manhã, conhecemos o mito. Um dos documentaristas mais respeitados de Cuba, autor de “Por primera vez”, quanta apresentação! Chega de puxarem o saco. Octávio Cortazar. Ele grita “Fran”, e o projecionista passa “Glass”. Nunca vou esquecer. Octávio pede minha opinião. E eu não entendo o sotaque cubano. Comento apenas com uma colega brasileira: a velha história de que quem sai do calor para o frio fica torto é história. Senão, nós, os 19 alunos, desdobraríamos nossos corpos em formas curvilíneas. Aquele ar-condicionado sempre ligado. Não discutam, Octávio sofre do coração. E eu não consigo parar de pensar em “Glass”.


É um ônibus-quase-defunto, mas, sem problemas, leva-nos à cidade de Bejucal. Parece que tudo em Cuba dura mais. Os ônibus, as casas sem tinta, a poeira, o cheiro de fumo mofado. O sorriso dos velhos. Simpático, amável é o povo de Bejucal. Sempre me oferecem café. Eu agradeço, com o olhar apático de uma hipoglicêmica. Sempre falam de novela e futebol, eu apenas sorrio, disfarçando minha ignorância.

Formam-se os grupos. Nós, sem tema, decidimos fazer sobre uma figura misteriosa do folclore de Bejucal: La Macorina. A história de um homem de La Habana que participava das Charangas, vestido de mulher. Ninguém sabia quem era. Mas nós somos cinco diretores que mal nos conhecemos e temos diferentes concepções de documentário. La Macorina tira meu sono. Dois dias de gravação, dois dias de edição. Pronto!

Coppola riscou na parede: “Art never sleeps”. Ettore Scola: “…delle artista sono la richezza del mundo”. Nelson Pereira dos Santos: “Hacer cine es voar (sic!) en libertad”. Fernando Trueba: “La vida es una película mal montada (y con un final de mierda).”

Toda a noite, às 20h, há um filme na sala de projeções. Vão os alunos do curso regular e das oficinas. E passamos as noites numa sucessão de recorrente inspiração. A tela nos deixa perdidos. “Blow up”, de Antonioni. E nos extasia com a beleza. “O Baile”, de Scola. E nos faz rir da eternidade de um clássico. “A primeira noite de um homem”, de Mike Nichols. E Cortázar ri da nossa ignorância, cada vez que exibe filmes raros.

Estou comendo sozinha, porque cheguei atrasada. Aquele homem, de 72 anos, senta ao meu lado no refeitório. E eu faço desfilar uma a uma as minhas angústias. Ele ouve o meu lamento tímido sobre a impossibilidade de viver da arte, sobre o medo de arriscar, sobre a falta de perspectivas futuras. Cortázar diz: “Thaís, te vas a vivir a Roma”. Não entendo o por que, mas passarei a estudar italiano. Também não entendo por que, em um dia de gravação, ele dá sua máquina a Pedro, o produtor, e pede que tire uma foto comigo. Sorrio para parecer alegre naquele recuerdo.

Além das aulas, há as festas. O ar sagrado do templo é sufocado pela fumaça de centenas de cigarros. As músicas não são nada cults. Dançamos salsa e reggaeton sob a lua enorme de Cuba, sob a lua que o rum torna menormenormenorme. E isso tudo sob um ar de poesia doente. Manuel Bandeira, Havana Club, Bucanero, cigarros, cinema, cinema e cinema.

E, assim, nos fazemos amigos. E, assim, os colombianos elogiam “Cidade de Deus”. E, assim, os mexicanos falam de “Amarelo Manga” e “Madame Satã”. E, assim, os espanhóis contam como são suas escolas de cine. E, assim, um chileno me confessa que sofre por amar demais.

Ilhados dentro da ilha. A internet está sempre fora do ar. A ligação é caríssima. Aliás, tudo é caro. Um país de duas moedas. Peso cubano para eles. Pesos convertíveis, equivalente ao euro, para nós. Tentam separar os cubanos dos turistas. Mas não. Trarei, na mala de mais de 30 kg, os livros com dedicatórias, os endereços para mandar cartas, as notas de três pesos cubanos com o retrato de Che. Trarei comigo sempre o abraço demorado de uma despedida que talvez seja para sempre. O afeto, que talvez seja para sempre, de Maripili, Moisés, Enrique, Pucho, Rafael, Mercedez y del historiador.

A muitos desses, dou o último abraço nesta tarde em que um destes ônibus pré-socráticos traz os bejucalenses à escola, para que assistam aos nossos trabalhos. Depois de três semanas. Também é a despedida sem abraços de Cortázar. Ele tenta escapar. Vamos, em grupo, até o carro dele. E ele diz: “Me voy, no me gustán las despedidas porque soy cardíaco. ¿Entienden lo que digo? Son preciosos”. E aquele carro pequeno, pobre e azul segue pela estrada de poeira. E Cortázar levanta o braço em um aceno distante.


Depois, a despedida afetuosa (e cheirando a rum) dos colegas. Prometemos e-mails, prometemos visitas. Eu vou viajar com o chileno que sofre por amar demais e com outra brasileira que, na escola de cine, deixa um grande amor. Vamos a Trinidad e a La Habana. Cinco meses depois, nosso reencontro é em Buenos Aires. Antes de bebermos vinho tinto, as três taças brindam a Cortázar. Nosso mestre, que morreu do coração em fevereiro e foi enterrado em Madrid, provando que, como Fernando Trueba escreveu com tintas vermelhas na parede da escola, a “vida es una película mal montada (y con un final de mierda).”

6 comentários:

disse...

lindo, amiga. tu me fez reviver umas (boas)lembrancas jah adormecidas do meu periodo cubano.

Augusto Paim disse...

Thaís, A primeira noite de um homem é muito bom!

E o chileno tava te tentiando! Eheheh.

Beijão, guria. Tá ficando clichê elogiar teus textos.

Anônimo disse...

Achei muito bom o relato de tua experiencia, parece que eu estava contigo, partilhando tuas angustias e alegrias. Achei emocionante o final do texto em que o Cortazar vai embora e somente um aceno, parece que ele estava adivinhando...
Beijos eabraços menoremenormenor.
Maria do Carmo.

Daniell disse...

Seu texto foi de grande ajuda! Vou pra lá em Setembro para o curso regular e já deu pra me 'aclimatar' melhor com seu texto.

Cami´s disse...

Ah, amiga!
Quanto orgulho!
Quanta evolução!
Quase nunca passo por aqui, mas hoje me deparei com essa beleza que tu escreveu!
Parecia que eu tava lendo um texto de alguem bem famoso, articulado, que sabe 'lidar' com as palavras. Normalmente a gente (eu pelo menos, nessa minha ignorância ehehe)imagina que quem escreve assim, com essa preciosidade, é alguém mto distante de nós... e no entanto tu tá aqui... tão pertinho. E é tão talentosa!!! Que feliz! Parabéns!

El chileno que amaba demasiado disse...

Hey!!!

Permíteme aclarar que el chileno no estaba tentando a Thais!!!!!!

En fin, bromas aparte, muchas gracias amiga, por recordar esos lindos momentos y por rendir homenaje a Octavio.

Un abrazo,